sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Os encontros são acasos.
Os reencontros, liberdade.
Escolher viver,
Escolher mostrar-se...

Ronca o vento seguindo o caminho
Que aponta do norte do peito.
Grilos com seus sonhos verdes,
Cascos que cavalgam paciência obstinada. 

Subo na árvore e sinto o vento de outrora.
Tento descer e fincar minha liberdade,
que impaciente de sonhos e acasos,
sobrevive e se angustia com as dores da cavalgada.

Ao longe, de cima, a visão dos primeiros pelos dos prados (no rumo do norte do peito).
Abaixo, percevejos abraçam os restos de folhas 
Que a lama remoeu entre meus calcanhares e dedos de saudade.
O caminhar começa no primeiro passo.
Também se caminha com os olhos.  

Ao meu lado, o cheiro do amargo doce das folhas
Cipós prendem minhas mãos calejadas
que o trabalho forjou no dia-a-dia
Corro em busca de esperança
que foge junto ao caminhar dos meus olhos

Encontrar é apostar na vida,
é tomar um café, num bar qualquer. 
Reencontrar é casar com a fuga e com o vento, por vontade.
Tudo a fim de buscar algum tipo de foz que alimente, ou mangue que sustente.
Reencontrar é, de alguma forma, saber viver em solidão.

Moacir Carranca e Cilmar B. Cura

sábado, 16 de julho de 2011

Rilke - trecho de "Cartas a um Jovem Poeta"

"Não se deve deixar enganar em sua solidão, por existir algo em si que deseja sair dela. Justamente tal desejo, se dele se servir tranqüila e sossegadamente como de um instrumento, há de ajudá-lo a estender a sua solidão sobre um vasto território. Os homens com o auxílio das convenções, resolveram tudo facilmente e pelo lado mais fácil da facilidade; mas é claro que nós devemos agarrar-nos ao difícil. Tudo o que é vivo se agarra a ele, tudo na natureza cresce e se defende segundo a sua maneira de ser; e faz-se coisa própria nascida e contra qualquer resistência. Sabemos pouca coisa, mas que temos de nos agarrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom estar só, porque a solidão é difícil. O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita.
Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação. Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo, não sabem amar: tem que aprendê-lo.
Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário, medroso e palpitante, devem aprender a amar. Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura. Assim, para quem ama, o amor , por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo. O amor antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para o longe. Do amor que lhes é dado, os jovens deveriam servir-se unicamente como de um convite para trabalhar em si mesmos (“escutar e martelar dia e noite”). A fusão com outro, a entrega de si, toda a espécie de comunhão não são para eles (que deverão durante muito tempo ainda juntar muito, entesourar); são algo de acabado para o qual . talvez, mal chegue atualmente a vida humana.
Aí está o erro tão grave e freqüente dos jovens: eles – cuja natureza comporta o serem impacientes – atiram-se uns aos outros quando o amor desce sobre eles e derrramam-se tais como são com seu desgoverno, sua desordem, sua confusão. Que acontecerá pois? Que poderá fazer a vida desse montão de material estragado a que eles chamariam felicidade? Que futuro os espera? Cada um se perde por causa do outro e perde ao outro e muitos outros que ainda queriam vir. Perde os longes e as possibilidades, troca o aproximar-se e o fugir de coisas silenciosas e cheias de sugestões por uma estéril perplexidade de onde nada de bom pode vir, a não ser um pouco de enjôo, desilusão e empobrecimento. Depois procuram salvar-se, agarrando-se a uma das muitas convenções que se oferecem como abrigos para todos nesse perigoso caminho. Nenhum terreno da experiência humana é tão cheio de convenções como este. Há nele uma profusão de cintos salva-vidas, canos e bexigas natatórias, toda a espécie de refúgios preparados pela opinião que, inclinada, a considerar a vida amorosa um prazer, teve de torná-la fácil, barata, sem perigos e segura como os prazeres do público.
No entanto, muitos jovens que amam erradamente, isto é, entregando-se simplesmente sem manterem a sua solidão – e a média fica sempre nisso - , sentem o peso opressivo do erro cometido e gostariam de, à sua maneira, tornar vivedouro e fértil o estado de coisas a que se vêem reduzidos. A sua natureza lhes diz que as questões do amor não podem , menos ainda do que qualquer outra importante, ser resolvidas em comum, conforme um acordo qualquer; que são perguntas feitas diretamente de um ser humano para outro, que em cada caso exigem outra resposta, específica, estritamente pessoal. Mas como podem eles, que já se atiraram uns aos outros e não mais se delimitam nem se distinguem, quer dizer, que nada mais possuem de seu, encontrar uma saída em si mesmos, no fundo de sua solidão já derramada?(...)" 


Trecho de "Cartas a um jovem poeta" de Rainer Maria Rilke

domingo, 10 de julho de 2011

"A luz que me abriu os olhos
para a dor dos deserdados
e os feridos de injustiça,
não me permite fechá-los
nunca mais, enquanto viva.
Mesmo que de asco ou fadiga
me disponha a não ver mais,
ainda que o medo costure
os meus olhos, já não posso
deixar de ver: a verdade
me tocou, com sua lâmina
de amor, o centro do ser..."

Thiago de Mello

Intervenção WC: "Obrando a Obra"


Intervenção WC “Obrando a obra”

– tudo que sei
só sei porque vou à latrina - 
(parafraseando León Tosltói "tudo que sei só sei porque amo")

Categoria ontológica da vida: obreiros todos. Obras ininterruptas, inevitáveis, genuínas. Diários autógrafos em ato. Aqui, nesse território, se pode saber pouco ou quase nada, ignorar verdades ou tê-las todas, co-habitar todos os homens de todos os tempos nos poucos minutos. Lambuzar nas dobras da pele, nos poros côncavos, saliva viva. Saliva latejando no compasso das artérias... "Ter muita saliva pra lamber sonho em carne viva!" Sonho saliva, saliva carne! Vida! 
    Desenrolar certezas e mamilos dupla face. Dobrar arrependimentos histéricos em camadas habilmente. Atolar lapadas certeiras nas crostas ainda moles, nos vincos melados dos anseios apressados, insurgentes. Repetir pelo menos 3 X´s sem receio de borrar as franjas dos dedos. Deitar a imundície e sujeira de forma que se dilua e não se reconheça, nos flancos, os pedaços putrefados ainda úmidos. Descartar o material imundo como quem doa o rim a um desconhecido. Plantar nos ladrilhos, perto das bordas dos cus: cupidos, diarreias aladas, milagres e estrelas. Compor os órgãos entupidos em florestas, terra fértil, lembranças lançadas. Assoviar sementes e adubo nos corações e ventres áridos, farpados. Trocar discursos por borboletas, tecer casulos e mãos que se encontram. Desenclausurar primaveras. Apontar labaredas de roncos e peidos às saliências do ar. Quando muito sonoras, tentar controlar os estrondos escondendo os trovões, raios e anjos com trombetas no caos de entranhas em que se contorcem negras nuvens gordas. Desenrolar o abdômen no zíper deslizando os dedos cheios de cócegas sinfônicas. Jatos de bolhas cômicas gargalhando espumas: risos sonoros costurados nas cerâmicas íntimas. Liberdade escatológica e luz no fim do cano. Cogumelos fisiopoéticos e gastrofilosóficos retumbantes. Deixar que novas lágrimas escorram na velha latrina. Chorar descargas nos olhos rasos e tristes. Abrir a válvula rangendo bocas imundas, escovar orquídeas no hálito das manhãs. Limpar os tímpanos do peito no céu de pássaros que puxam acordes azuis no parto do sol. Abrir torneiras de chamas nos ferrolhos gordos de cólera. Perdoar as rugas que aos poucos se cavam nos olhos lambendo a urgência da vida ralo abaixo. Secar a pele fecundando os poros, assim preparar o parto natural de novos suores. Rabiscar trincos a serem abertos com beijos, costurar fio por fio, nó a nó, cortinas líquidas nos pactos de amor. Esgarçar mais e mais as bordas dos beiços até que escorreguem os beijos difíceis. Masturbar as fadas porque não se tem um conto. Bochechar versos e restos com flúor nas feridas das gengivas e nas cáries. Arrotar aftas líricas cadentes que rasgam o céu de dentes. Espremer suspiros encravados, assoar carícias constipadas, tosar ovelhas que fugiram de travesseiros assanhados. Roçar os maços de cílios frementes nos buracos da fechadura trancada, assim, romper gemidos de cheiros úmidos que habitam nas pregas de insônias oníricas. Aparar sobras de dores. Escorrer água nos cascos dos cílios. Assumir todas as máscaras e absurdos de frente. Assediar as urgências do tempo, estuprar  nos poucos metros quadrados as rotinas todas. Fazer desses lábios prostitutos o beijo da virgem mastigando a massa espessa dos gozos que virão, sem pressa. Enfim, voltar e viver.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Todo Exército

Percebe quando a natureza manda só observar firme e aguentar, porque mesmo sem eu e todos em querer, está aí, nos prédios e cús.

Meu peito explode de emoção, mas ainda estou preso e acorrentado. Anos e anos a sonhar!
Ser uma ovelha respeitada até por lobos, eis uma grande questão!

Booooommmm.... longe os primeiros torpedos gritam.
Rajadas de colocar alguma vigília. Vigília.

Psiu... aqui eu posso me colocar medo... quero me procurar cagando-me... sentir o prazer da morte na endorfina.
Olho, raciocino (automático):
escorrego para fechar a janela, constato que já está fechada, mais uma vez.
Um garoto pego a massagear o pau, culpado depois de muitos anos e já ranzinza,
Escondido no meio dos pelos brancos meio virgens. Sozinho.

Um grito interno que pode triturar meus tímpanos e jamais poderei amar de novo, porque o amor que me disseram espera alguma coisa, outra coisa, aquilo que posso estar querendo esquecer.
Alguma outra presença, misteriosa, que pode corroer meus músculos
E tudo continua pungente e doendo, entre os suspiros.

Tudo que se faz a respeito deixo pra traz e corro para me esconder. Um ato de defesa. Todos os desesperos a moverem rápidos. Só Chopin noturno está dançando tranquilo, eu estou na guerra.
Sou todo exército.
Chopin está comigo sem que eu veja nos ouvidos.

Me dou mais alguns minutos entre os tiros das metralhadoras, almejando não enlouquecer.
Adormeço, enfim, como um cadáver de guerra.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Era tudo tão complicado.
Ficar ou ir. Ir, ficar. Ir ou ficar...
Tudo como ordens, escolhas obrigadas.

Se abster era como "estar com sono sem querer dormir"...
Não adormecer.

VIDA. VIVER. ESTAR VIVO.

Tudo tão matematicamente errado com o mundo.

Alguém sempre mandando achar onde guiar, encontrar o certo.
Afff.... todo esse sono de olhos arregalados, gordura na pele, botas gastas e muito caminho.
Tão complicado.
Onde está o sutil?

LAR

Tem um corredor que passo
Feliz, contente!
Entre dramas e coceiras
Cruzo enamorado
Os ladrilhos e vasos floridos,

Agradeço a sei lá quem
E estou FORTE!
(ainda reclamão como sempre)

(Flui o rio mesmo assim)

Que maravilhoso lugar!

LAR

sábado, 23 de abril de 2011

Lá ela

Lá ela,

vestido colorido, longo e nos joelhos, mechas de luz reluzindo alguns cachos nos balanços das músicas, pés dispostos na malemolência dos quadris previamente decididos a balançar, linda, linda ela vestida nos segredos do próprio corpo, corpo decidido nalguma das coragens todas, aquelas entre uma das dela, na noite. Uma coragem e um colorido vestido, afinal, dançantes.

Essa alguma coragem que mantém os rostos por algum colados, os pés dançantes, o coração batendo. O hálito nos passos cadenciados a rolar um tapete de flores e sons.

O corpo.
Corpo com outro corpo.
O outro corpo.
Eu corpo com o outro, dançando.
Eu e o corpo, sem verbo.
(Em nós a dançante história dos costumes e esse chão batido onde namoram os pés)

Em todo o resto estávamos conversando (eu e ela) em silêncio, envergonhados.
Haveria eu de conseguir saber de alguém dela que chamasse alguém para saber dela alguma coisa? Sei quase nada... sei pouco.
Ai...

Tenho algum gosto pelo meu estar aqui, guardo meus presentes no bolso, à espera. É por isso que me envergo redundante dos todos esses mistérios, assim, impenetráveis, guardados muito distantes, a exigir uma longa busca, caminhada para os pés, momentos de sentir nos cantos da boca o coração batendo, perder rota e direção com paciência obstinada, essas e outras coisas...

Ele, pulsante nas veias, badalando aqui no dentro, nessa coisa que investe no lembrar, lembrar, lembrar até fazer virar um sonho desprendido, nas teclas, mostrando, insinuante, como alguma espécie de amor (do que se entende por esta palavra), alguma espécie de crença e aposta no outro, algo que busca, que se desnuda com a paciência de um olhar atento pesando antigas experiências, um tanto imerso no aqui em percurso. Algo novo algo, constituído e constituinte, em movimento, indo, indo, para os lados todos nos viscos dos vestidos coloridos, dançantes.
Pedinte é aquele que pede, a insistência é seu atributo pela repetição, pedinte de água, comida, ternura, força, coragem, vestidos coloridos, desafios vencidos, pés dançantes. Ele está a pedir, a delatar sua comoção.

Não... sim... não sim, não, sim, movimento ou acúmulo de gestos? Sim, não, sim não, não, sim
Ai...     

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sobre o Amor,

E quando Ele não é, assim, só uma coisa meio solta, disperso como folhas ao vento?
Não foge como a água entre os dedos, não abdica da sua posição de Soberano. No palacete do coração ele não anda preso, nem vigiado por olhos criados; não anda a perseguir o tempo como se fosse querer tê-lo na cava dura das mãos.  
Faz tomá-lo pulsante, irrigando as veias e os músculos das palmas, nos calos.  
Faz querê-Lo como uma xácara distante, em que será abençoado com a graça dos suspiros e saudades.
Faz querê-Lo como uma jóia guardada que ninguém pode tirar do você, porque ninguém pode tirar aquilo que não  vê ou compreende.
 Quem haverá de querer, de todas as lembranças, as mais preciosas, apenas simpósios sobre a dor humana e máculas que distribuímos distraídos todos os dias?
Quem haveria de querer o que de ímpeto pulasse ao parapeito enganado, abandonado pelo medo, raivoso?

Não! Ele há de ser essa lembrança que sempre puxa um sorriso, uma emoção bonita!
Haverá de me resgatar em alguma noite e fazer dia de dia, noite de noite, agradecer.
Soberano!
    






terça-feira, 20 de julho de 2010

O Festim dos Ogros

Fim de semana, julho no calendário e ela liga de São Paulo e diz que vem, que deveria ter vindo antes, mas não havia tido oportunidade que a fizesse desamarrar os compromissos do novo emprego para aproveitar o solzinho frio que se instalava no inverno da praia... a música e o tambor o mote para que o encontro pudesse fluir tal como folha escorrendo com as águas de um rio ribanceira abaixo, na busca do mar sem fim.
Eu não havia esquecido dos últimos instantes da conversa longinqua que marcara a despedida na estação onde ela haveria de retornar do fim de semana de amores e shows, meses antes. Conversando sobre o profundo da vida me marcou especialmente a frase "os homens são uns ogros", que havia me feito pensar sobre banalização do sagrado que está contido no amor entre as pessoas, mesmo que aquele amor pudesse ser fugaz, instantâneo e momentâneo. Tal frase soava pra mim como a de um detento que se dispõe a lutar por sua liberdade, insatisfeito com a dominação indevida, ávido por sentir o vento mais forte em uma qualquer montanha, cientista louco de si mesmo na busca da própria redenção... era exatamente ali que tinha ficado boa parte de meu carinho, que eu havia depositado as folhas do meu amor nascente, afinal, por que eu haveria de desfrutar do mundo apenas aquilo que não me apetecia completamente, por que buscar pelo ouro dos tolos na ponta de arco-iris artificiais? Ela me tinha, e havia ido em casa, uma casa em mudança, para provar do meu "ogro", porque eu não havia de ser diferente de ninguém, muito pelo contrário, também havia um detento em mim. 
Fora a timidez do se ver, a dificuldade de articular o sorriso que não saiu com as lembranças alegres e a saudade do antes com o abraço que não foi dado, a surpresa que meus olhos não podiam afastar era a riqueza de detalhes com que estavam dispostos os elementos do presente que ela trazia nas mãos. Meses depois do primeiro encontro, tal não foi minha surpresa quando vejo em seus braços, no meu exato número, a vestimenta de "ogro" que ela trazia em costura fina disposta a fazer reluzente a noite em que eu haveria de usá-la...? 
E foi essa minha única e decisiva falha... aceitei o presente como um servo que se enche de pompa para ir lustrar o chicote do senhor. Aceitei o presente porque sempre se aceitam os presentes. Ora que raro, por que eu também não posso vestir meu ogro com o ogro que ela me trouxe? Apenas porque todos querem, vamos Fabrício, entre nestas vestes que ela caberão como luva. E couberam... desajustadas na altura do coração que não conseguia se manter firme entre os laços e fitas coloridas: as cores daquela felicidade encobriam alguns fios daquele seu amor, o mais genuíno.
Sem as chaves de minha casa (estavam nos bolsos dela), com a anuência da minha passividade racional que mandava a boca calar-se e não reclamar, pudemos, enfim, iniciar o festim mágico que ela chegou propondo e organizando, com pessoas que não eram minhas convidadas, com regras que não eram as minhas e o circo armou-se, com a minha anuência. Minha guerreira na luta contra a submissão do amor colocava o banquete para o amor entre "ogros" e havia vestido a mim com especial interesse.
E ai, numa dessas confusões quando alguém pergunta: de quem é essa casa, quem organizou tudo isso? Já não sabia responder, apenas me declarava e denunciava a quaisquer olhos, pois estava vestido como o que mais sonhara com tudo aquilo... ahhh desilusão de mim mesmo, mentira que se colocada se mostra... coração sinceridade, coração coerente, estas as armas de luta, e elas atuantes mesmo que se esteja anestesiado ou aniquilado, como movimentos involuntários de armadilhas pré-dispostas, prontas e colocadas nos momentos de sobriedade em que se planeja a última resistência ao invasor...
Dia posto, o sol raia um turvo descontentamento com as armadilhas que haviam sido disparadas e com a voracidade com que tinham sido realizadas as coisas na noite e na festa. Uma festa de ogros, sim, uma festa de ogros.
Desabotoei os panos do peito e fiz o coração respirar, por minutos. O restante das vestes ainda estavam muito apertadas e não foi possível retirá-las (o que rendeu alguns esforços a mais na segunda-feira). O que foi feito depois? Ahhh, renderia mais um capitulo desta história. Bastaria dizer que eu fiquei assim, meio ogro, meio armadilhas. Algumas sinceridades impossíveis de serem ocultadas, a necessidade de estancar algumas feridas abertas e infecciosas, a revolta contra a prostituição de si mesmo, o carinho de ter recebido e conhecido pessoas queridas que vieram para a festa de ogros mas... ,sobretudo, humanas e queridas, tão perdidas quanto eu... 
Ela também... que é linda, astuta, corajosa, sensível... toda aquela confusão e imaturidade não foi o que ficou. Tá... tá certo que não haveria mais de ter festins como aqueles, não mais... eu não mais me convidaria para tal... teríamos que trazer ao menos alguns anjos... e é preciso tempo e peito para que eles se organizem...

Céu de Safira

E foi, com ela e eu tendo que ir.
- Fora, meu lindo!
Foi, ela foi, saia 12h seu ônibus. Expresso Luxo. Foi. Espelho azul do céu ofuscado pelo inverno chuvoso, ter em Rosário. Avião levando pra longe, ela possivelmente no sorriso lindo habitual, cabelos negros lisos, escorrendo as orelhas, lisos e a franja com os olhos puxados, a pele lisa, lisa... eu e ela... no meio da noite nos encontramos, entre os fantasmas que nos assediavam: conhecidos e conhecentes. Ar úmido, ar-águadechuva, ar-fumaça, ar-cerveja, ar-eu-e-ela... tudo desde lá do samba do ouro-verde, na rua do samba, de onde ela se ria e comentava do menino careca e de meia calças que iria querer levá-la embora no final da noite, carinhoso e bêbado. Apenas o ímpeto de perder a hegemonia do peito frente ao organismo descontrolado foi objeto de calafrios na vontade de um bom devir com mais sorrisos lindos habituais, pele lisa, boa prosa. Acordar e poder ouvir ela reclamar pra dormir mais um pouco antes do “fora, lindo!”, regado a café e ansiedade dos horários do trampo, medo de ter chateado quem tanto se amou e se ama, lavar louças. E eu leve, pronto pro domingo me encorpar a alma de frio pé na areia, eu tinha ido já no fluxo dos afazeres para me pegar por vez ou outra no pensamento daquela moça meio tailandesa, de nome exótico que aos poucos se afeiçou no meu abraço, durante a festa, uma festa de família. Escreve oras! E tudo isso na perspectiva de quem quer, sobretudo, reservar e construir a melhor entrada, em que quem ganha são todos, ele e ela os que mais. Vontade de que ela, quem sabe, vá ler suas mensagens e que, por boa vontade, procurar na memória alguma coisa que pudesse ou devesse ele ter dito, ou feito... pra melhor. Desejo de quem fica na terra firme olhando o colorido das pipas e dos pássaros de lata no céu, com brilho na ponta do sorriso... aceno de chauuuuuuuuuuu.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A buscar II

O céu estrelado recostou meus olhos tristes e minha angústia,
O negro da noite se afeiçoou à mortalha do nosso amor.
Não mais é possível reconhecer no crepúsculo do teu sorriso
As badaladas daquele coração descompassado.
A cama esfacelada não lembra mais os rugidos sensuais, a comoção.
É apenas a covardia, astuta, dançando entre nosso relicário de mágoas.

Corremos para um abraço, mas o navio está partindo sem destino, como nós.
Vejo-te entre lenços brancos e outros rostos,
Ouço teu clamor, teu sussurro perdido entre outros gritos,
Mas a âncora da vida içara e o mar e o horizonte sem fim
Entorpecem os sentidos. O cheiro de sal arrepia.
Entre enjôos e esperanças sorrio, sinto o vento em meus cabelos
E tua imagem, gravada no álbum do coração, (sem pátria, cor, identidade ou data)
Mensura os rabiscos do tempo nos ombros do Criador.

Por que não preferistes o mundo?
Mesmo assim ainda te vejo.
Em meus olhos busco a lágrima que não me comove
Por que já me comovi demais sem chorar.
Busco-te, mas não existes mais (mesmo vendo).
Teu cheiro impregna minhas roupas, na minha pele.
E pareço não querer deixar de entoar esses cânticos enlouquecidos,
Nem tratar desse vício que se satisfaz no apelo e na melancolia.
Não ousaria não sentir esse medo da solidão
Sem os braços retesados e firmes no adeus...   

Hei de ver sair pela janela as almas que me fazem bem,
Tendo a liberdade de ver-me tão de perto.
Estão dentro de mim!
Que saiam! Eu também!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Uma sombra vaga nas ruas de São Paulo, Santos e Guarujá.
Desculpe, escuto essa sombra.
Anda sempre por aqui e ali,
Topando e sapateando.

Jorra, por vezes, das vestes do Universo,
O líquido escuro que a barriga oculta da luz
Oferta como um beijo.

Entre pelos desnudos e pele quase virgem, abre-se um calor profundo.
A proeza mais glorificada, o momento dentro da lótus,
O instante abençoado, coroado.
Dos lábios carnudos do cosmo
Escorrem espasmos de dor e medo
Também riqueza e beleza, tudo junto.

A vista embaralhada para achar outros,
Muitos outros olhos misturados
Na sombra.
A todos os meus desejos, aqueles cuja voz embarga meus olhos, cuja petulância silencia minha garganta e meus lábios, a todos os meus desejos indesejados, dedico a sinfonia melancólica destes passos e caminhos percorridos. Sei que tudo que sou, todas as atitudes, dilemas, tragédias, horrores, delícias, circunscrevem uma sinfonia desejante. É quando não me conformo de ser tão vil, na vileza de todos, é quando não me conformo de ser tão triste na tristeza dos atrozes e submissos, é quando não acredito no meu potencial homicida, fratricida, suicida... que penso poder separar entre os homens a mediocridade que não se desfaz, inocência do almejar ser bom.
Não creiamos no medíocre, ele pode ser jovial e doce. Na amargura escatológica, no sombrio horror do fim de tarde, desejaria, para amenizar, ser medíocre e jovial e lúcido.
Mas sou eu, sou também Carranca, sou Moacir, e posso chorar e contorcer. Posso comungar perjúrios e futilidades e poderei ter com todos e de todos fazer apenas uma noite, bebendo e bebendo.

A dúvida de estar tentando ser alguém que não se almeja, hierarquizando sentimentos, submetendo a questionários de zero a dez, contratando pessoas com o olhar, esperando currículos de mercado.

Farto, farto, pregando o desconhecido, distante do amor.