domingo, 10 de julho de 2011

Intervenção WC: "Obrando a Obra"


Intervenção WC “Obrando a obra”

– tudo que sei
só sei porque vou à latrina - 
(parafraseando León Tosltói "tudo que sei só sei porque amo")

Categoria ontológica da vida: obreiros todos. Obras ininterruptas, inevitáveis, genuínas. Diários autógrafos em ato. Aqui, nesse território, se pode saber pouco ou quase nada, ignorar verdades ou tê-las todas, co-habitar todos os homens de todos os tempos nos poucos minutos. Lambuzar nas dobras da pele, nos poros côncavos, saliva viva. Saliva latejando no compasso das artérias... "Ter muita saliva pra lamber sonho em carne viva!" Sonho saliva, saliva carne! Vida! 
    Desenrolar certezas e mamilos dupla face. Dobrar arrependimentos histéricos em camadas habilmente. Atolar lapadas certeiras nas crostas ainda moles, nos vincos melados dos anseios apressados, insurgentes. Repetir pelo menos 3 X´s sem receio de borrar as franjas dos dedos. Deitar a imundície e sujeira de forma que se dilua e não se reconheça, nos flancos, os pedaços putrefados ainda úmidos. Descartar o material imundo como quem doa o rim a um desconhecido. Plantar nos ladrilhos, perto das bordas dos cus: cupidos, diarreias aladas, milagres e estrelas. Compor os órgãos entupidos em florestas, terra fértil, lembranças lançadas. Assoviar sementes e adubo nos corações e ventres áridos, farpados. Trocar discursos por borboletas, tecer casulos e mãos que se encontram. Desenclausurar primaveras. Apontar labaredas de roncos e peidos às saliências do ar. Quando muito sonoras, tentar controlar os estrondos escondendo os trovões, raios e anjos com trombetas no caos de entranhas em que se contorcem negras nuvens gordas. Desenrolar o abdômen no zíper deslizando os dedos cheios de cócegas sinfônicas. Jatos de bolhas cômicas gargalhando espumas: risos sonoros costurados nas cerâmicas íntimas. Liberdade escatológica e luz no fim do cano. Cogumelos fisiopoéticos e gastrofilosóficos retumbantes. Deixar que novas lágrimas escorram na velha latrina. Chorar descargas nos olhos rasos e tristes. Abrir a válvula rangendo bocas imundas, escovar orquídeas no hálito das manhãs. Limpar os tímpanos do peito no céu de pássaros que puxam acordes azuis no parto do sol. Abrir torneiras de chamas nos ferrolhos gordos de cólera. Perdoar as rugas que aos poucos se cavam nos olhos lambendo a urgência da vida ralo abaixo. Secar a pele fecundando os poros, assim preparar o parto natural de novos suores. Rabiscar trincos a serem abertos com beijos, costurar fio por fio, nó a nó, cortinas líquidas nos pactos de amor. Esgarçar mais e mais as bordas dos beiços até que escorreguem os beijos difíceis. Masturbar as fadas porque não se tem um conto. Bochechar versos e restos com flúor nas feridas das gengivas e nas cáries. Arrotar aftas líricas cadentes que rasgam o céu de dentes. Espremer suspiros encravados, assoar carícias constipadas, tosar ovelhas que fugiram de travesseiros assanhados. Roçar os maços de cílios frementes nos buracos da fechadura trancada, assim, romper gemidos de cheiros úmidos que habitam nas pregas de insônias oníricas. Aparar sobras de dores. Escorrer água nos cascos dos cílios. Assumir todas as máscaras e absurdos de frente. Assediar as urgências do tempo, estuprar  nos poucos metros quadrados as rotinas todas. Fazer desses lábios prostitutos o beijo da virgem mastigando a massa espessa dos gozos que virão, sem pressa. Enfim, voltar e viver.

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