Fim de semana, julho no calendário e ela liga de São Paulo e diz que vem, que deveria ter vindo antes, mas não havia tido oportunidade que a fizesse desamarrar os compromissos do novo emprego para aproveitar o solzinho frio que se instalava no inverno da praia... a música e o tambor o mote para que o encontro pudesse fluir tal como folha escorrendo com as águas de um rio ribanceira abaixo, na busca do mar sem fim.
Eu não havia esquecido dos últimos instantes da conversa longinqua que marcara a despedida na estação onde ela haveria de retornar do fim de semana de amores e shows, meses antes. Conversando sobre o profundo da vida me marcou especialmente a frase "os homens são uns ogros", que havia me feito pensar sobre banalização do sagrado que está contido no amor entre as pessoas, mesmo que aquele amor pudesse ser fugaz, instantâneo e momentâneo. Tal frase soava pra mim como a de um detento que se dispõe a lutar por sua liberdade, insatisfeito com a dominação indevida, ávido por sentir o vento mais forte em uma qualquer montanha, cientista louco de si mesmo na busca da própria redenção... era exatamente ali que tinha ficado boa parte de meu carinho, que eu havia depositado as folhas do meu amor nascente, afinal, por que eu haveria de desfrutar do mundo apenas aquilo que não me apetecia completamente, por que buscar pelo ouro dos tolos na ponta de arco-iris artificiais? Ela me tinha, e havia ido em casa, uma casa em mudança, para provar do meu "ogro", porque eu não havia de ser diferente de ninguém, muito pelo contrário, também havia um detento em mim.
Fora a timidez do se ver, a dificuldade de articular o sorriso que não saiu com as lembranças alegres e a saudade do antes com o abraço que não foi dado, a surpresa que meus olhos não podiam afastar era a riqueza de detalhes com que estavam dispostos os elementos do presente que ela trazia nas mãos. Meses depois do primeiro encontro, tal não foi minha surpresa quando vejo em seus braços, no meu exato número, a vestimenta de "ogro" que ela trazia em costura fina disposta a fazer reluzente a noite em que eu haveria de usá-la...?
E foi essa minha única e decisiva falha... aceitei o presente como um servo que se enche de pompa para ir lustrar o chicote do senhor. Aceitei o presente porque sempre se aceitam os presentes. Ora que raro, por que eu também não posso vestir meu ogro com o ogro que ela me trouxe? Apenas porque todos querem, vamos Fabrício, entre nestas vestes que ela caberão como luva. E couberam... desajustadas na altura do coração que não conseguia se manter firme entre os laços e fitas coloridas: as cores daquela felicidade encobriam alguns fios daquele seu amor, o mais genuíno.
Sem as chaves de minha casa (estavam nos bolsos dela), com a anuência da minha passividade racional que mandava a boca calar-se e não reclamar, pudemos, enfim, iniciar o festim mágico que ela chegou propondo e organizando, com pessoas que não eram minhas convidadas, com regras que não eram as minhas e o circo armou-se, com a minha anuência. Minha guerreira na luta contra a submissão do amor colocava o banquete para o amor entre "ogros" e havia vestido a mim com especial interesse.
E ai, numa dessas confusões quando alguém pergunta: de quem é essa casa, quem organizou tudo isso? Já não sabia responder, apenas me declarava e denunciava a quaisquer olhos, pois estava vestido como o que mais sonhara com tudo aquilo... ahhh desilusão de mim mesmo, mentira que se colocada se mostra... coração sinceridade, coração coerente, estas as armas de luta, e elas atuantes mesmo que se esteja anestesiado ou aniquilado, como movimentos involuntários de armadilhas pré-dispostas, prontas e colocadas nos momentos de sobriedade em que se planeja a última resistência ao invasor...
Dia posto, o sol raia um turvo descontentamento com as armadilhas que haviam sido disparadas e com a voracidade com que tinham sido realizadas as coisas na noite e na festa. Uma festa de ogros, sim, uma festa de ogros.
Desabotoei os panos do peito e fiz o coração respirar, por minutos. O restante das vestes ainda estavam muito apertadas e não foi possível retirá-las (o que rendeu alguns esforços a mais na segunda-feira). O que foi feito depois? Ahhh, renderia mais um capitulo desta história. Bastaria dizer que eu fiquei assim, meio ogro, meio armadilhas. Algumas sinceridades impossíveis de serem ocultadas, a necessidade de estancar algumas feridas abertas e infecciosas, a revolta contra a prostituição de si mesmo, o carinho de ter recebido e conhecido pessoas queridas que vieram para a festa de ogros mas... ,sobretudo, humanas e queridas, tão perdidas quanto eu...
Ela também... que é linda, astuta, corajosa, sensível... toda aquela confusão e imaturidade não foi o que ficou. Tá... tá certo que não haveria mais de ter festins como aqueles, não mais... eu não mais me convidaria para tal... teríamos que trazer ao menos alguns anjos... e é preciso tempo e peito para que eles se organizem...
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