quinta-feira, 10 de junho de 2010

A buscar II

O céu estrelado recostou meus olhos tristes e minha angústia,
O negro da noite se afeiçoou à mortalha do nosso amor.
Não mais é possível reconhecer no crepúsculo do teu sorriso
As badaladas daquele coração descompassado.
A cama esfacelada não lembra mais os rugidos sensuais, a comoção.
É apenas a covardia, astuta, dançando entre nosso relicário de mágoas.

Corremos para um abraço, mas o navio está partindo sem destino, como nós.
Vejo-te entre lenços brancos e outros rostos,
Ouço teu clamor, teu sussurro perdido entre outros gritos,
Mas a âncora da vida içara e o mar e o horizonte sem fim
Entorpecem os sentidos. O cheiro de sal arrepia.
Entre enjôos e esperanças sorrio, sinto o vento em meus cabelos
E tua imagem, gravada no álbum do coração, (sem pátria, cor, identidade ou data)
Mensura os rabiscos do tempo nos ombros do Criador.

Por que não preferistes o mundo?
Mesmo assim ainda te vejo.
Em meus olhos busco a lágrima que não me comove
Por que já me comovi demais sem chorar.
Busco-te, mas não existes mais (mesmo vendo).
Teu cheiro impregna minhas roupas, na minha pele.
E pareço não querer deixar de entoar esses cânticos enlouquecidos,
Nem tratar desse vício que se satisfaz no apelo e na melancolia.
Não ousaria não sentir esse medo da solidão
Sem os braços retesados e firmes no adeus...   

Hei de ver sair pela janela as almas que me fazem bem,
Tendo a liberdade de ver-me tão de perto.
Estão dentro de mim!
Que saiam! Eu também!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Uma sombra vaga nas ruas de São Paulo, Santos e Guarujá.
Desculpe, escuto essa sombra.
Anda sempre por aqui e ali,
Topando e sapateando.

Jorra, por vezes, das vestes do Universo,
O líquido escuro que a barriga oculta da luz
Oferta como um beijo.

Entre pelos desnudos e pele quase virgem, abre-se um calor profundo.
A proeza mais glorificada, o momento dentro da lótus,
O instante abençoado, coroado.
Dos lábios carnudos do cosmo
Escorrem espasmos de dor e medo
Também riqueza e beleza, tudo junto.

A vista embaralhada para achar outros,
Muitos outros olhos misturados
Na sombra.
A todos os meus desejos, aqueles cuja voz embarga meus olhos, cuja petulância silencia minha garganta e meus lábios, a todos os meus desejos indesejados, dedico a sinfonia melancólica destes passos e caminhos percorridos. Sei que tudo que sou, todas as atitudes, dilemas, tragédias, horrores, delícias, circunscrevem uma sinfonia desejante. É quando não me conformo de ser tão vil, na vileza de todos, é quando não me conformo de ser tão triste na tristeza dos atrozes e submissos, é quando não acredito no meu potencial homicida, fratricida, suicida... que penso poder separar entre os homens a mediocridade que não se desfaz, inocência do almejar ser bom.
Não creiamos no medíocre, ele pode ser jovial e doce. Na amargura escatológica, no sombrio horror do fim de tarde, desejaria, para amenizar, ser medíocre e jovial e lúcido.
Mas sou eu, sou também Carranca, sou Moacir, e posso chorar e contorcer. Posso comungar perjúrios e futilidades e poderei ter com todos e de todos fazer apenas uma noite, bebendo e bebendo.

A dúvida de estar tentando ser alguém que não se almeja, hierarquizando sentimentos, submetendo a questionários de zero a dez, contratando pessoas com o olhar, esperando currículos de mercado.

Farto, farto, pregando o desconhecido, distante do amor.
Assusta, nega, contrai em ódio,
Lambe os beiços
No viscoso sangue da galinha do Belzebu.
Se enoja do meu jeito doce de passar
Ante suas garras e saliva mal cheirosa.

Sempre a espera na esquina
Garfo e faca na mão
Vestido melhor amigo, maior amor.

Quero consentir seu cheiro no ar.
Seus olhos semi-cerrados e brutos
Me fitam, a espreita.

É possível lamber os mamilos,
Chupar a cintura sem cinto
Cavalgar nos negros pelos
De alguém que não se ama?

Será que esconde a face e o coração
na maneira de acariciar?

Enquanto a língua percorre os dentes,
Sedentos de mim
Minha carícia enlaça o corpo da sua alma,
Eu fujo enquanto me entrego.

Minha pernas não são velozes.
Tampouco eu seja menos detestável,
Menos preso.

O que quer de mim?
O que quer em mim,
Eu? Você?
Alguém que chega em casa solitário?
Dividir ou destruir para ter?
Queres apenas ter?