domingo, 9 de agosto de 2009

O Espinho e a Rosa

Da impotência do Homem perante suas palavras e dissertações acerca da natureza ou índole alheia, como se a necessidade de expressar fosse maior que a de seu veículo.
Aquele que se refugia na poesia para dizer aquilo que não consegue numa proza antes do almoço ou, mesmo, após descalçar os sapatos no fim da tarde.


Como eu, rosário triste erguido entre espinhos e caule,

Agüentarei a rudeza da poda, o fio da navalha que me decepa?

Não devo esperar, pois, que meu brilho ofusque,

Que o esplendor e a majestade desapareçam?

Da vida, vejo o corpo vestindo negro dos demônios que me rodeiam.

Do desespero sombrio destes questionamentos a própria vida revida:

- Por que as lágrimas de tristeza, bela roseira?

Esquecestes que a tua vaidade te entorpecia?

Esquecestes que tua arrogância tapou teus sentidos?

Pensastes tanto no brilho que deverias ter, no brilho que cobrariam de tua vermelhidão,

Mas ocultastes de ti mesma, que as partes mais belas de ti não eram tão úteis quanto a sabedoria cravada na força de teus espinhos.

Enquanto cultivastes tua beleza, que era a esperança nos olhos do enamorado e não nos teus,

Desprezastes a força sublime de tua defesa, subestimastes a rudeza que te amparava.

Agora, entre os espinhos atrofiados de teu corpo, enxergas tua chaga aberta no peito,

O sepulcro da vida e a lápide com o teu nome.

Da mão que te cultivastes, serás facilmente abatida...

Assim és tu, roseira, triste como lua que sorri através do sol.

Se sentes que te rasgo a carne, que te roubo os fios de esperança, engana-te.

Nem o ardente verão (que é o cavaleiro do fogo)

Cobra quando vê o beijo gostoso do vento levando as flores e as folhas em março.

Nem a mais formosa Dama da Noite,

Desespera quando raia o sol e seu perfume dilui no ar, longe dos poetas.

É preciso lembrar que a revolta do mar abranda quando cura a ressaca,

Que o ventre do universo é morada daqueles que sofrem.

Oh, linda roseira, tu que é apenas um suspiro de Deus,

Tu, que é apenas suspiro...

Imaculada carne aflita, rosto sem véu, dorso nú.

Descansa em silêncio a noite

Que haverá de ser a última como roseira.

Amanhã será apenas a emoção de um sorriso, num momento de amor.

Nas Colinas

Esta poesia foi feita para um anjo. O pior dos homens está nesse anjo, seu aspecto de escárnio, sua brutalidade desmedida, escória e pompa. Possui, também, as mais incríveis doçuras, a mais pura fonte de beleza. Figura entre a santa e a prostituta, preferindo, até, a última. Seu horror é a outra face da mais pungente arrebatação.

Nas colinas

Nas colinas, onde assovia mais forte o vento,

Recostei as costas da alma

E deixei o mundo lamber a pele fina das minhas cicatrizes.

Entreolhei no longínquo

Os vales profundos que minha existência percorrera,

E no invisível escuro entre os arbustos

Lembrei das lágrimas que o sol não secara

E as flores cujas sementes não brotaram.

Das colinas, onde o verde das plantas beija a brisa branca,

Descansei as rugas que o tempo já rasgara,

As carícias que tuas mãos tatuastes...

Acho que havia esquecido

Que jamais posso esquecer-me de mim mesmo,

Apagar lembranças,

Cremar antigas novidades.

Havia esquecido

Que horizontes são para serem admirados,

Que colinas recostam angústias

E que meu coração palpita como a leveza dos pássaros rasantes.

Lembro quando me mostrastes pela primeira vez as trilhas

E me avisastes sobre o perigo e a necessidade de percorrê-las,

Ou como me preocupei com o ardor da jornada,

Com o calor do clima...

Recordei, porém,

Que sem fogo, lenha é apenas lenha,

Que sem o toque, mãos não se encontram.

Hoje,

Despido da noite e do dia, do zelo e do pudor,

Fito o céu imenso sobre os meus pés

E delineio, no véu das nuvens,

O espírito de Deus no toque dos teus lábios.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

E Você Continua Aqui

Definitivamente a dor enquanto mola propulsora de versos e acertivas! A poesia do lazarento, do prostituido. Sentimento daquele que prostitui os maiores valores que tem, pela carência do amor. Novamente o tema da crise da vida a dois e a impossibilidade de lidar com o caldo que é duas vezes insuportável: o estar junto e o estar distante. A grande saudade/nostalgia, apesar dos sonhos díspares e das incompatibilidades.




E você continua aqui

Por que teima estar aqui?

Materializo tua voz e teu colo dentro do eu de dentro.

Você percorre meu sangue, inundando o rubor de minha face

(ainda quente em teu pescoço)

Ajuda minhas pernas bater ruas, guerras, oceanos

Cursa o gosto amargo de acordar pela manhã.

Como posso respirar você?

Me destes tudo que precisava

Para entender a fragilidade e a impotência da vida a dois.

Me destes o carinho mais insuportavelmente bom,

O ventre mais macio,

O tédio e a melancolia dos domingos Fausto Silva.

Posso ser eu tão vazio quanto o espaço que delimita nossa distância?

Quanto o tempo que separa nosso último beijo apaixonado?

(já não me lembro quando foi isso)

Acreditei até que a felicidade é a tristeza de estar só contigo,

Cheguei a demolir patrimônios que haviam sido tombados em mim.

Taquei fogo em praças, jardins, jasmins.

Vi Nero morto e grades ao meu redor.

Havia eu roubado de Prometeu seu eterno destino,

Havia sucumbido depois de tanto tempo entrincheirado.

E você continua aqui.

Quando está repousando fico mais tranqüilo,

Descanso de procurar motivos pra provar o quanto estou bem,

O quanto posso ser alegre e contente,

Alheio às tormentas

(A imagem de um perfeito idiota happy ending).

Lanço, então, nesses momentos

A imagem de um pensamento triunfante a degladiar

O cheiro doce do teu sexo,

Tua mão consoladora,

Tua feição arredia ante meus maneirismos

E questiono, sinto, choro, amaldiçôo e bendigo,

Como um louco desvairado a correr pelas ruas com teu nome tatuado na testa,

De como essa vida torta há de conduzir o leme arredio dessa embarcação

– que se chama peito –

No fluxo das torrentes e ventanias.


E ela se foi...

Na mesma pegada da postagem anterior, esse texto foi escrito num contexto de desenlace e avaliação da vida a dois. Talvez o anterior tenha um quê mais reflexivo, mas racionalizado, enquanto este já traz um caminho delineado, algo ocorrido. Não figura enquanto "start" da coisa, mas enquanto sujeito que pega os cacos ao chão e canta enquanto chora:



"E se foi... como pétala, entre raios e trovões. Havia chuva pelo mundo, uma tormenta no meio profundo da noite, e ela escorregava devagar, suave, compenetrada no seu ter que ir, compenetrada dum rubiáceo de pétala, desorientada no hálito do caos.

E era como se a pétala ousasse ainda resistir aos rodamoinhos, à avalanche de pequenos tufos de pedras, entre galhos de árvores. Era como uma indignada que não ousava retroceder e ter gasto as energias em vão. Haveria de proteger, no mar mesclado da Natureza ensandecida, a fragilidade de um botão esmaecido.

Ia e se foi... dura, por fora, no qualquer ato de reconsiderar qualquer passagem, qualquer.. . Sua voz poderia ser de uma aridez quase biliática, tão vazia que transbordava. Como se não se fosse saber quando ou não retroceder, quando o caminho tem-se tornado cada vez mais tenebroso, pela constância e estabilidade das intempéries e se é preciso empunhar uma voz e buscar frear ou se entender, se for possível,

ou seguir adiante para o púlpito do desespero e da mutilação, se a exaltação buscar uma sombra profunda, da melancolia e do embotamento, se anestesiar o sofrer.

Apesar do amor, se foi, apesar de ser amada,

Com força e com raiva, como se o objeto da dor fosse a causa desejada, e disso tudo uma ira, e tudo porque a perfeita Natureza não é perfeita, porque os anjos dormem enquanto os homens remoem seus sentimentos longínquos, imersos, imensos, partos de dores e de defesas, guerras e escombros de guerras, atrás das máscaras.

Só não sabia que o Amor era maior que ela, que o botão todo; que ele era soberano. Porque ele é como a mentira de qualquer verdade que já foi inventada, e porque haveria de existir em algum momento a calmaria, e a paz voltasse nos raios de sol, mesmo que caducasse e a vida fosse jubilada. Se não havia esperança e perspectiva para pétala, o Amor haveria de se mover tranqüilo pela eternidade".

Para Sempre é Muito Grande

Em resgate à estória amorosa que circunda essa existência, fui buscar nos confins de um baú uma carta de amor, de dor, de despedida. Daqueles momentos em que se tem uma amostra da profundidade e da complexidade da relação a dois que está próxima do desenlace físico, mas não emocional. Início de uma pesquisa acerca da difuculdade de vincular sonhos e desejos na agenda comum do casal.


Para sempre é muito grande. Eu deixo estar, ou tento. Se os meteorologistas sabem o rumo dos ventos, eu apenas olho as folhas e as flores dançando.
Olho você... e meus lábios tremem.
Quem não tem medo? Quem não tem? Desde quando brinquei de ser adulto e ainda era criança, não pude mais me esconder dos cantos escuros da vida, dos bichos do armário, dos fantasmas da alma. No pedaço de cama entre meus pais, não existe mais cama, não existem mais pais. Quando tenho medo, amor, me consolo na minha tristeza. Me consolo na dor. Ela é meu remédio para o medo. Por isso, não posso ter pretensão a nada, não posso... sou apenas uma flor dançando no vento. Apenas um sopro no pé do ouvido, um arrepio na espinha.
Cansei de muitas coisas, sabia? Cansei de conquistar, disputar grandes batalhas, cansei de ser. Agora eu preciso estar...
Vi no reflexo da janela alguém que não gostaria de ver: prudente, objetivo, sério e cansado. Dessa imagem afasto o corpo, mas ela reflete no caminho tatuado na neve, por meus pés, através do espaço e do tempo, através dos invernos e dos casacos que usei.
Ah, meu amor, como quero rejuvenescer a idéia de que estou?
Como amparar o peso da minha alma na película da água e nadar sem medo e sem pudor?
Meus questionamentos sobre a vida não são meramente bobagens e tolices. Minhas indecisões são reflexões sobre a liberdade, sobre o pleno e sobre a sombra, e eu quero ser respeitado por isso... quero abrir mão de tudo, menos de mim, porque é tudo que eu tenho.
Não preciso da hipocrisia do mundo para amar você porque o amor é tão simples, que ele se basta. Mas, se antes eu não tiver varrido o chão dentro de minha casa, assim como você da sua, seremos infelizes de encontrar nossas vassouras na calçada do mundo, seremos apenas pó e narizes dilatados.
O toque dos seus lábios são beijos de Deus...
Seu ombro é tão aconchegante que o dia sempre amanhece mais cedo quando estamos juntos.
É preciso lembrar que sempre existe a hora de acordar; despedir-se é apenas uma ilusão porque eu carregarei você pra sempre em mim e, mesmo que eu quisesse arrancá-la seria impossível, você é carne, é tecido constituído. 
Como somos cegos, a vida se encarrega de guiar os passos escuros, ela nos leva como o vento leva o dia quente e traz a chuva. 

E como somos apenas flores, dançamos.