sexta-feira, 7 de agosto de 2009

E ela se foi...

Na mesma pegada da postagem anterior, esse texto foi escrito num contexto de desenlace e avaliação da vida a dois. Talvez o anterior tenha um quê mais reflexivo, mas racionalizado, enquanto este já traz um caminho delineado, algo ocorrido. Não figura enquanto "start" da coisa, mas enquanto sujeito que pega os cacos ao chão e canta enquanto chora:



"E se foi... como pétala, entre raios e trovões. Havia chuva pelo mundo, uma tormenta no meio profundo da noite, e ela escorregava devagar, suave, compenetrada no seu ter que ir, compenetrada dum rubiáceo de pétala, desorientada no hálito do caos.

E era como se a pétala ousasse ainda resistir aos rodamoinhos, à avalanche de pequenos tufos de pedras, entre galhos de árvores. Era como uma indignada que não ousava retroceder e ter gasto as energias em vão. Haveria de proteger, no mar mesclado da Natureza ensandecida, a fragilidade de um botão esmaecido.

Ia e se foi... dura, por fora, no qualquer ato de reconsiderar qualquer passagem, qualquer.. . Sua voz poderia ser de uma aridez quase biliática, tão vazia que transbordava. Como se não se fosse saber quando ou não retroceder, quando o caminho tem-se tornado cada vez mais tenebroso, pela constância e estabilidade das intempéries e se é preciso empunhar uma voz e buscar frear ou se entender, se for possível,

ou seguir adiante para o púlpito do desespero e da mutilação, se a exaltação buscar uma sombra profunda, da melancolia e do embotamento, se anestesiar o sofrer.

Apesar do amor, se foi, apesar de ser amada,

Com força e com raiva, como se o objeto da dor fosse a causa desejada, e disso tudo uma ira, e tudo porque a perfeita Natureza não é perfeita, porque os anjos dormem enquanto os homens remoem seus sentimentos longínquos, imersos, imensos, partos de dores e de defesas, guerras e escombros de guerras, atrás das máscaras.

Só não sabia que o Amor era maior que ela, que o botão todo; que ele era soberano. Porque ele é como a mentira de qualquer verdade que já foi inventada, e porque haveria de existir em algum momento a calmaria, e a paz voltasse nos raios de sol, mesmo que caducasse e a vida fosse jubilada. Se não havia esperança e perspectiva para pétala, o Amor haveria de se mover tranqüilo pela eternidade".

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