"E se foi... como pétala, entre raios e trovões. Havia chuva pelo mundo, uma tormenta no meio profundo da noite, e ela escorregava devagar, suave, compenetrada no seu ter que ir, compenetrada dum rubiáceo de pétala, desorientada no hálito do caos.
E era como se a pétala ousasse ainda resistir aos rodamoinhos, à avalanche de pequenos tufos de pedras, entre galhos de árvores. Era como uma indignada que não ousava retroceder e ter gasto as energias em vão. Haveria de proteger, no mar mesclado da Natureza ensandecida, a fragilidade de um botão esmaecido.
Ia e se foi... dura, por fora, no qualquer ato de reconsiderar qualquer passagem, qualquer.. . Sua voz poderia ser de uma aridez quase biliática, tão vazia que transbordava. Como se não se fosse saber quando ou não retroceder, quando o caminho tem-se tornado cada vez mais tenebroso, pela constância e estabilidade das intempéries e se é preciso empunhar uma voz e buscar frear ou se entender, se for possível,
ou seguir adiante para o púlpito do desespero e da mutilação, se a exaltação buscar uma sombra profunda, da melancolia e do embotamento, se anestesiar o sofrer.
Apesar do amor, se foi, apesar de ser amada,
Com força e com raiva, como se o objeto da dor fosse a causa desejada, e disso tudo uma ira, e tudo porque a perfeita Natureza não é perfeita, porque os anjos dormem enquanto os homens remoem seus sentimentos longínquos, imersos, imensos, partos de dores e de defesas, guerras e escombros de guerras, atrás das máscaras.
Só não sabia que o Amor era maior que ela, que o botão todo; que ele era soberano. Porque ele é como a mentira de qualquer verdade que já foi inventada, e porque haveria de existir em algum momento a calmaria, e a paz voltasse nos raios de sol, mesmo que caducasse e a vida fosse jubilada. Se não havia esperança e perspectiva para pétala, o Amor haveria de se mover tranqüilo pela eternidade".

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