Por que teima estar aqui?
Materializo tua voz e teu colo dentro do eu de dentro.
Você percorre meu sangue, inundando o rubor de minha face
(ainda quente em teu pescoço)
Ajuda minhas pernas bater ruas, guerras, oceanos
Cursa o gosto amargo de acordar pela manhã.
Como posso respirar você?
Me destes tudo que precisava
Para entender a fragilidade e a impotência da vida a dois.
Me destes o carinho mais insuportavelmente bom,
O ventre mais macio,
O tédio e a melancolia dos domingos Fausto Silva.
Posso ser eu tão vazio quanto o espaço que delimita nossa distância?
Quanto o tempo que separa nosso último beijo apaixonado?
(já não me lembro quando foi isso)
Acreditei até que a felicidade é a tristeza de estar só contigo,
Cheguei a demolir patrimônios que haviam sido tombados em mim.
Taquei fogo em praças, jardins, jasmins.
Vi Nero morto e grades ao meu redor.
Havia eu roubado de Prometeu seu eterno destino,
Havia sucumbido depois de tanto tempo entrincheirado.
E você continua aqui.
Quando está repousando fico mais tranqüilo,
Descanso de procurar motivos pra provar o quanto estou bem,
O quanto posso ser alegre e contente,
Alheio às tormentas
(A imagem de um perfeito idiota happy ending).
Lanço, então, nesses momentos
A imagem de um pensamento triunfante a degladiar
O cheiro doce do teu sexo,
Tua mão consoladora,
Tua feição arredia ante meus maneirismos
E questiono, sinto, choro, amaldiçôo e bendigo,
Como um louco desvairado a correr pelas ruas com teu nome tatuado na testa,
De como essa vida torta há de conduzir o leme arredio dessa embarcação
– que se chama peito –
No fluxo das torrentes e ventanias.

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