Nas colinas
Nas colinas, onde assovia mais forte o vento,
Recostei as costas da alma
E deixei o mundo lamber a pele fina das minhas cicatrizes.
Entreolhei no longínquo
Os vales profundos que minha existência percorrera,
E no invisível escuro entre os arbustos
Lembrei das lágrimas que o sol não secara
E as flores cujas sementes não brotaram.
Das colinas, onde o verde das plantas beija a brisa branca,
Descansei as rugas que o tempo já rasgara,
As carícias que tuas mãos tatuastes...
Acho que havia esquecido
Que jamais posso esquecer-me de mim mesmo,
Apagar lembranças,
Cremar antigas novidades.
Havia esquecido
Que horizontes são para serem admirados,
Que colinas recostam angústias
E que meu coração palpita como a leveza dos pássaros rasantes.
Lembro quando me mostrastes pela primeira vez as trilhas
E me avisastes sobre o perigo e a necessidade de percorrê-las,
Ou como me preocupei com o ardor da jornada,
Com o calor do clima...
Recordei, porém,
Que sem fogo, lenha é apenas lenha,
Que sem o toque, mãos não se encontram.
Hoje,
Despido da noite e do dia, do zelo e do pudor,
Fito o céu imenso sobre os meus pés
E delineio, no véu das nuvens,
O espírito de Deus no toque dos teus lábios.

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