sábado, 16 de julho de 2011

Rilke - trecho de "Cartas a um Jovem Poeta"

"Não se deve deixar enganar em sua solidão, por existir algo em si que deseja sair dela. Justamente tal desejo, se dele se servir tranqüila e sossegadamente como de um instrumento, há de ajudá-lo a estender a sua solidão sobre um vasto território. Os homens com o auxílio das convenções, resolveram tudo facilmente e pelo lado mais fácil da facilidade; mas é claro que nós devemos agarrar-nos ao difícil. Tudo o que é vivo se agarra a ele, tudo na natureza cresce e se defende segundo a sua maneira de ser; e faz-se coisa própria nascida e contra qualquer resistência. Sabemos pouca coisa, mas que temos de nos agarrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom estar só, porque a solidão é difícil. O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita.
Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação. Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo, não sabem amar: tem que aprendê-lo.
Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário, medroso e palpitante, devem aprender a amar. Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura. Assim, para quem ama, o amor , por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo. O amor antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para o longe. Do amor que lhes é dado, os jovens deveriam servir-se unicamente como de um convite para trabalhar em si mesmos (“escutar e martelar dia e noite”). A fusão com outro, a entrega de si, toda a espécie de comunhão não são para eles (que deverão durante muito tempo ainda juntar muito, entesourar); são algo de acabado para o qual . talvez, mal chegue atualmente a vida humana.
Aí está o erro tão grave e freqüente dos jovens: eles – cuja natureza comporta o serem impacientes – atiram-se uns aos outros quando o amor desce sobre eles e derrramam-se tais como são com seu desgoverno, sua desordem, sua confusão. Que acontecerá pois? Que poderá fazer a vida desse montão de material estragado a que eles chamariam felicidade? Que futuro os espera? Cada um se perde por causa do outro e perde ao outro e muitos outros que ainda queriam vir. Perde os longes e as possibilidades, troca o aproximar-se e o fugir de coisas silenciosas e cheias de sugestões por uma estéril perplexidade de onde nada de bom pode vir, a não ser um pouco de enjôo, desilusão e empobrecimento. Depois procuram salvar-se, agarrando-se a uma das muitas convenções que se oferecem como abrigos para todos nesse perigoso caminho. Nenhum terreno da experiência humana é tão cheio de convenções como este. Há nele uma profusão de cintos salva-vidas, canos e bexigas natatórias, toda a espécie de refúgios preparados pela opinião que, inclinada, a considerar a vida amorosa um prazer, teve de torná-la fácil, barata, sem perigos e segura como os prazeres do público.
No entanto, muitos jovens que amam erradamente, isto é, entregando-se simplesmente sem manterem a sua solidão – e a média fica sempre nisso - , sentem o peso opressivo do erro cometido e gostariam de, à sua maneira, tornar vivedouro e fértil o estado de coisas a que se vêem reduzidos. A sua natureza lhes diz que as questões do amor não podem , menos ainda do que qualquer outra importante, ser resolvidas em comum, conforme um acordo qualquer; que são perguntas feitas diretamente de um ser humano para outro, que em cada caso exigem outra resposta, específica, estritamente pessoal. Mas como podem eles, que já se atiraram uns aos outros e não mais se delimitam nem se distinguem, quer dizer, que nada mais possuem de seu, encontrar uma saída em si mesmos, no fundo de sua solidão já derramada?(...)" 


Trecho de "Cartas a um jovem poeta" de Rainer Maria Rilke

domingo, 10 de julho de 2011

"A luz que me abriu os olhos
para a dor dos deserdados
e os feridos de injustiça,
não me permite fechá-los
nunca mais, enquanto viva.
Mesmo que de asco ou fadiga
me disponha a não ver mais,
ainda que o medo costure
os meus olhos, já não posso
deixar de ver: a verdade
me tocou, com sua lâmina
de amor, o centro do ser..."

Thiago de Mello

Intervenção WC: "Obrando a Obra"


Intervenção WC “Obrando a obra”

– tudo que sei
só sei porque vou à latrina - 
(parafraseando León Tosltói "tudo que sei só sei porque amo")

Categoria ontológica da vida: obreiros todos. Obras ininterruptas, inevitáveis, genuínas. Diários autógrafos em ato. Aqui, nesse território, se pode saber pouco ou quase nada, ignorar verdades ou tê-las todas, co-habitar todos os homens de todos os tempos nos poucos minutos. Lambuzar nas dobras da pele, nos poros côncavos, saliva viva. Saliva latejando no compasso das artérias... "Ter muita saliva pra lamber sonho em carne viva!" Sonho saliva, saliva carne! Vida! 
    Desenrolar certezas e mamilos dupla face. Dobrar arrependimentos histéricos em camadas habilmente. Atolar lapadas certeiras nas crostas ainda moles, nos vincos melados dos anseios apressados, insurgentes. Repetir pelo menos 3 X´s sem receio de borrar as franjas dos dedos. Deitar a imundície e sujeira de forma que se dilua e não se reconheça, nos flancos, os pedaços putrefados ainda úmidos. Descartar o material imundo como quem doa o rim a um desconhecido. Plantar nos ladrilhos, perto das bordas dos cus: cupidos, diarreias aladas, milagres e estrelas. Compor os órgãos entupidos em florestas, terra fértil, lembranças lançadas. Assoviar sementes e adubo nos corações e ventres áridos, farpados. Trocar discursos por borboletas, tecer casulos e mãos que se encontram. Desenclausurar primaveras. Apontar labaredas de roncos e peidos às saliências do ar. Quando muito sonoras, tentar controlar os estrondos escondendo os trovões, raios e anjos com trombetas no caos de entranhas em que se contorcem negras nuvens gordas. Desenrolar o abdômen no zíper deslizando os dedos cheios de cócegas sinfônicas. Jatos de bolhas cômicas gargalhando espumas: risos sonoros costurados nas cerâmicas íntimas. Liberdade escatológica e luz no fim do cano. Cogumelos fisiopoéticos e gastrofilosóficos retumbantes. Deixar que novas lágrimas escorram na velha latrina. Chorar descargas nos olhos rasos e tristes. Abrir a válvula rangendo bocas imundas, escovar orquídeas no hálito das manhãs. Limpar os tímpanos do peito no céu de pássaros que puxam acordes azuis no parto do sol. Abrir torneiras de chamas nos ferrolhos gordos de cólera. Perdoar as rugas que aos poucos se cavam nos olhos lambendo a urgência da vida ralo abaixo. Secar a pele fecundando os poros, assim preparar o parto natural de novos suores. Rabiscar trincos a serem abertos com beijos, costurar fio por fio, nó a nó, cortinas líquidas nos pactos de amor. Esgarçar mais e mais as bordas dos beiços até que escorreguem os beijos difíceis. Masturbar as fadas porque não se tem um conto. Bochechar versos e restos com flúor nas feridas das gengivas e nas cáries. Arrotar aftas líricas cadentes que rasgam o céu de dentes. Espremer suspiros encravados, assoar carícias constipadas, tosar ovelhas que fugiram de travesseiros assanhados. Roçar os maços de cílios frementes nos buracos da fechadura trancada, assim, romper gemidos de cheiros úmidos que habitam nas pregas de insônias oníricas. Aparar sobras de dores. Escorrer água nos cascos dos cílios. Assumir todas as máscaras e absurdos de frente. Assediar as urgências do tempo, estuprar  nos poucos metros quadrados as rotinas todas. Fazer desses lábios prostitutos o beijo da virgem mastigando a massa espessa dos gozos que virão, sem pressa. Enfim, voltar e viver.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Todo Exército

Percebe quando a natureza manda só observar firme e aguentar, porque mesmo sem eu e todos em querer, está aí, nos prédios e cús.

Meu peito explode de emoção, mas ainda estou preso e acorrentado. Anos e anos a sonhar!
Ser uma ovelha respeitada até por lobos, eis uma grande questão!

Booooommmm.... longe os primeiros torpedos gritam.
Rajadas de colocar alguma vigília. Vigília.

Psiu... aqui eu posso me colocar medo... quero me procurar cagando-me... sentir o prazer da morte na endorfina.
Olho, raciocino (automático):
escorrego para fechar a janela, constato que já está fechada, mais uma vez.
Um garoto pego a massagear o pau, culpado depois de muitos anos e já ranzinza,
Escondido no meio dos pelos brancos meio virgens. Sozinho.

Um grito interno que pode triturar meus tímpanos e jamais poderei amar de novo, porque o amor que me disseram espera alguma coisa, outra coisa, aquilo que posso estar querendo esquecer.
Alguma outra presença, misteriosa, que pode corroer meus músculos
E tudo continua pungente e doendo, entre os suspiros.

Tudo que se faz a respeito deixo pra traz e corro para me esconder. Um ato de defesa. Todos os desesperos a moverem rápidos. Só Chopin noturno está dançando tranquilo, eu estou na guerra.
Sou todo exército.
Chopin está comigo sem que eu veja nos ouvidos.

Me dou mais alguns minutos entre os tiros das metralhadoras, almejando não enlouquecer.
Adormeço, enfim, como um cadáver de guerra.