segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O beijo longe da boca.
Foi quando naquele instante o pensamento havia levado num ímpeto louco, logo antes de desamassar a cara ou lavar os dentes, que os dedos hábeis acharam no outro lado, pelos baixios de perdizes, pra saber se era possível... e era.
Não que contasse que tinha ficado meio estasiado antes, alguns dias de elocubrações sobre a maciez, sobre balbuciar ternuras, alguma maneira de armar na mesa todos os comes e bebes, e deixar a festa acontecer, mágica...
E foi!
Foi ela também!
Que veio, linda, flor de tricô escorrendo o cabelo atraz da orelha esquerda, combinando com os sapatos vermelhos, me encontrar entre mendingos e adolescentes de all star e cabelos coloridos, na Augusta a 120 km por hora eu tinha vindo correndo pra não deixar ela, só, me esperando. Era só eu e ela... ela e eu...
Havia me dito, então, que não era possível montar um fervura daquelas, nem que o amor pudesse surgir assim, na festa, porque depois do porre o espírito amolece e desfalece em cefaléia, que eu não tinha de concordar com tais devaneios, que era preciso ver e pesar - vamos dançar se as pernas estiverem firmes, se o sapato adequado puder deslizar no taco envernizado, se o terno de brim couber na cintura emagrecida, pois o brilho do olhar pode virar desespero e dor. Queres, pois, da tua vida o imedido?
Havia me pego de calças curtas, tênis e uma blusa manchada. Na sua inteligência as palavras fluiram e captaram as contradições que imperam em minha alma assustada e insinuante. Já não sabia mais nem quais eram minhas bandas favoritas...
E, então, era como se o carniceiro houvesse exposto demasiadamente as viceras com seus miúdos, de forma que o freguês tivesse perdido a fome. E quanto "a mim, ela assim, eu no final sem meu lugar", sem minha festa que era pura vaidade...
Deixa pra lá o lombo, molho madeira, champagne, taças de cristal... pega o copo e enche que o negócio é assumir o boteco e deixar que o beijo, enfim, aconteça longe da boca, mas aconteça, pois ela pediu pra mim não esmorecer disse que alguma coisa dentro dela tinha mexido e que a culpa era minha e que agente tinha que ter menos caos no peito, que tinha em algum lugar um forró...
Foi desse jeito que ela me deixou com uma melancolia que não era toda feita de tristeza como é quando acontece alguma coisa com alguém que a gente goste. E eu fui até a consolação pra passar o resto da noite jogando detetive com os amigos argentinos, que estavam felizes e em algum momento eu já estava quase feliz mesmo, porque sabia que tinha um estômago dentro de meu peito que já estava realizando o trabalho digestivo e que talvez não fosse necessário usar anti-ácido, nem procurar um médico.
Por fim, tinha também, nascendo, de algum lugar indeterminado, o desejo do bom devir, pois não havia ainda pendurado guirlanda na porta e era possível que tudo fosse incrível, de novo, além do sonho, como foi, mas mais tranquilo!!!!
Mais depois ela liga, preocupada com o estômago do peito, com a voz terna que nenhuma viola mi-si-sol-ré-lá pode alcançar aquele timbre de tão melodioso, me deixa sem jeito, morrendo de vontade de ligar de novo... desse jeito ela me ganha, sei não.

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